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ToCv.3.8: Entonces

Entonces


Vim aqui só pra dizer que estou no maior corre-corre por causa do curso de língua italiana, aquele deveria ter começado na segunda-feira, mas que só começou ontem por causa do pequeno número de inscritos.

O assessor do comune disse minutos antes do início do curso que foram muitas as pessoas interessadas, mas devido à burocracia, a média inscrita ficou bem abaixo do que eles esperavam. Pediu diversas vezes a nossa colaboração no senso de participação (freqüentar o curso todos os dias), pois eles estão sujeitos à controle do ente (leia-se Região Siciliana, o estado siciliano), pois são eles que dão o incentivo ($) e, por isso, querem ver o curso, os participantes e a coisa toda funcionar realmente, porque senão existem multas (pra eles, comune, não pros estudantes) e todo o blá-blá-blá político que só quem vive no chamado "estado mafioso" sabe do que estou falando...

Segundo o levantamento do ufficio anagrafe comunale (órgão que controla nascimentos, mortes, casamentos, domicílio, cidadania, registro de estrangeiros e uma série de outras coisas), o número de estrangeiros nesta cidade é muito grande -- em torno de 600 pessoas --, mas apenas 152 é que são devidamente regularizadas, ou seja, que possuem residenza, permesso di soggiorno, carta d'identità e codice fiscale italianos. E este era o tal requisito para o curso (ter codice fiscale, o CPF italiano).

Os participantes
Somos em treze, mas nem todos vieram.
Tem apenas um homem, um marroquino de meia idade com um bigodão estilo Sadam. O restante são todas mulheres. Se não errei na conta são quatro polonesas (uma delas é uma menina de 9 anos, filha de uma das polonesas -- tem uma outra polonesa que está gravida de um menino que se chamará Carlo), duas alemãs, uma romena, uma filipina, eu, o Sadam-marroquino e uma outra marroquina muito sorridente -- ambos saíram mais cedo porque deviam fazer os rituais do Ramadã, se entendi bem. NENHUM chinês! :-o Algumas pessoas com mais de dois anos de residência na Itália (uma alemã tem quase trinta anos aqui na Sicília) e outras com apenas cinco meses (a outra alemã e sua amiga romena).

Eu sempre subvalorizei-me quando italianos elogiaram minha "espontâneidade" de falar em italiano (eu digo minha facilidade para aprender línguas) e meus rudimentares (mas nem tanto) conhecimentos da gramática da língua de Dante, porque sempre pensei "ah, querem me colocar pra cima, me incentivar porque me esforço em falar uma língua que não é a minha (mesmo com todos os erros que sei que comento e que foram chacoteados pelas costas por pessoa cativa -- chamo de 'cobra criada' --, deixando-me tão mal meses atrás...), mas na verdade eu sei que não sou tão ruim assim e que não falo mim-volere, mim-andare, mim-preoccupare" (estou exagerando pra vocês entenderem meu drama, não é que falo italiano assim, va bene?). Mas depois de ontem, estou me sentindo no céu, literalmente falando. E olha que eu falo italiano há apenas três anos e meio de forma mais intensa (falo, penso, resmungo e sonho em italiano)!

A primeira parte da aula
Primeiro os professores fizeram com que nos apresentássemos (nome, sobrenome, onde nascemos, o que fazemos, se trabalhamos e/ou estudamos, se gostamos desta cidade, nossos hobbies, o que mais gostamos/odiamos aqui na Itália, quais as diferenças mais marcantes entre Itália e o nosso país de origem, etc.). Eu detesto falar em público, sempre detestei porque morro de vergonha, sou tímida (isso vale pra qualquer uma das línguas que eu falo). Embora tenha combatido um pouco com o fenômeno das mãos frias e suadas, e o rubor nas bochechas (fenômenos que me fazem "travar" um pouco), consegui falar calmamente e me expressar bem, inclusive falei coisas importantes no ponto de vista do professor. Fizemos também um ditado em italiano -- era uma fábula -- e o professor pediu para que trocássemos com o colega mais próximo para corrigirmos os erros que achávamos existir no texto alheio. Muitos erros eu achei, mas cometi apenas um: uma palavra com apenas um esse e eu escrevi com dois esses. Not bad at all! :-)

O intervalo
Durante o intervalo fomos conhecer a biblioteca que fica na sala ao lado. O assessor nos falou de outros projetos que estão engatilhados assim que esse terminar (de novo o blá-blá-blá político, urgh!). Falou que podemos usar os computadores se quisermos, até mesmo para navegar na internet. Perguntou se conhecíamos internet... Eu virei as costas, sai de fininho e fui olhar o prateleira dos livros de arte! ;-P

A segunda parte da aula
Depois do intervalo de quinze minutos e alguns cigarrinhos a mais, o assessor veio com um livro caçado lá na sala da biblioteca e disse que era pra eu dar uma olhada. Era um livro em espanhol (La literatura nahuatl guadalupana - el nican mopohua. el ayate códice, de Victor Campa Mendoza). Foi a gafe da noite. Ele me perguntou se eu falava espanhol. Confesso pra vocês que eu fiquei com vontade de rir na cara dele (e tive que me conter), mas como sou pessoa fina e educada, disse que sim e que daria uma olhadinha em casa sem compromisso. Hoje levarei o livro de volta e direi que não tenho tempo disponível no momento para lê-lo (não estou com tempo nem pra me coçar, caramba!), mas que no futuro até posso pensar.

Continuando a aula, fizemos alguns exercícios de ditado -- um outro texto --, exercícios de plural e singular e diálogos em grupo.

A pergunta que não quer calar
Esqueci de escrever lá em cima: na sala de aula improvisada, apenas chegava um estrangeiro, um dos professores (são dois, um homem e uma mulher) tratava de advinhar de que nacionalidade esse estrangeiro era. Foi engraçado! Fui a terceira a entrar, cumprimentei os presentes e sentei-me numas das cadeiras vermelhas da sala. O professor me disse em italiano "você é... polonesa? não? ah, você é alemã então! nãããão?!? ah, então você é romena! como nãããão!?!?!?!?!!?! caspita, filipina sei que você não é e nem marroquina! Ou me engano?".

Hahaha! Por um momento me veio a nostalgia de quando eu esperava na fila do banheiro do Aeroporto de Malpensa (Milão) em 2001. Quando me olhei no espelho com casacão e gorro, cachinhos loiros saindo pra fora do gorro, branca como leite, muito mais alta que a maioria e vendo todas as mulheres que estavam lá dentro (orientais, caucasianas, africanas, latinas, tipo indiano e americano), eu parecia uma "cidadã qualquer do mundo", menos brasileira!

Agora eu pergunto aqui pra vocês: quem foi que inventou essa história que no Brasil se fala espanhol? Minha dedução é porque o Brasil é uma grande porção de terra cercada de países espanhóis por todos os lados, estamos na América Latina, hermanos, logo... Aliás, quem mandou o assessor me trazer esse bendito livro em espanhol-maia-mexicano?

Alguém me explica?

.....

Atenção mulheres (antes que eu me esqueça): hoje é o jornada mundial do combate à osteoporose!


Arrivederci!


Trocados contados no chapéu


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